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Mercado

Do Colapso ao Superávit: A Virada do Preço do Cacau e o Que Ela Significa Para o Chocolate de Verdade

Depois de dois anos de crise histórica, o mercado global de cacau projeta o primeiro superávit em anos — mas a recuperação é mais frágil e desigual do que os números sugerem.

Cacau em pó formando uma curva ascendente entre pedaços de chocolate, simbolizando a alta do preço do cacau

Em 2024, o preço do cacau nas bolsas internacionais bateu recordes históricos, chegando a picos entre US$ 10 mil e US$ 13 mil por tonelada, segundo reportagens da época — um salto puxado por quebras de safra na Costa do Marfim e em Gana, agravadas por doenças nas lavouras e pelos efeitos climáticos associados ao El Niño. O impacto chegou rápido ao consumidor brasileiro: o preço do chocolate subiu 24,77% em 12 meses, e ovos de Páscoa chegaram a ficar até 26% mais caros, segundo o Metropoles e o Seu Dinheiro.

Passados dois anos, o cenário começou a mudar. A International Cocoa Organization (ICCO), em seus boletins trimestrais mais recentes, projeta o primeiro superávit global de produção em várias safras para o ciclo 2025/2026 — embora o tamanho exato da projeção venha sendo revisado seguidamente para baixo: a StoneX reduziu sua estimativa de excedente de 287 mil toneladas (janeiro de 2026) para 247 mil toneladas (abril de 2026), enquanto o boletim da ICCO de maio de 2026 trouxe um número mais conservador, de 48 mil toneladas.

Do lado das cotações, também há sinal de alívio parcial — mas não de volta ao patamar pré-crise. Fontes de fevereiro de 2026 relatavam o cacau recuando para pouco mais de US$ 3 mil por tonelada; já os futuros consultados em julho de 2026 mostravam contratos negociados perto de US$ 5.320 por tonelada. Essa divergência provavelmente reflete a volatilidade real do mercado ao longo dos meses — não um erro de fonte — mas reforça que qualquer número específico de preço do cacau deve ser conferido no momento da leitura, não tratado como referência fixa.

O Que Isso Significa Para Quem Faz Chocolate de Verdade

A crise dos últimos dois anos deixou marca estrutural: fabricantes de grande escala reformularam receitas, reduzindo a proporção de cacau e substituindo por gordura vegetal — parte do motivo por trás da nova legislação brasileira que exige mais transparência sobre o que vai dentro de uma barra rotulada como "chocolate". Mesmo com sinais de superávit no horizonte, analistas do setor apontam riscos estruturais persistentes no oeste africano, de onde vem a maior parte do cacau mundial — o alívio de preços, se vier, tende a ser gradual e desigual entre origens.

Para o Brasil, que hoje conta com mais de 500 marcas de chocolate bean-to-bar e de origem segundo levantamentos do setor (número sem fonte primária confirmada), o momento é revelador por outro motivo: numa crise de matéria-prima, fica mais visível quem manteve a proporção de cacau e quem diluiu a receita silenciosamente.

Nosso ponto de vista:

A gente não fabrica chocolate, e não estamos aqui pra prever se o preço do cacau vai cair. Mas seguimos de perto porque o preço da matéria-prima também é um termômetro de honestidade: quando o cacau fica caro, a tentação de diluir a receita aumenta — e é exatamente nesse momento que fica mais fácil identificar quem manteve a proporção de cacau e quem trocou por gordura vegetal. Nosso trabalho aqui é te ajudar a enxergar essa diferença antes de decidir onde gastar.